O manguezal de Suape não se revela de uma só vez. É preciso esperar a maré baixar, calçar a bota certa e aceitar que a lama gruda como memória. No dia 9 de junho de 2026, acompanhei Francisco — guia e coletor de siris há trinta anos — e sua prima Lúcia, que conhece cada curva do canal pelo som da água.
Saímos antes do sol nascer. A névoa pairava baixa e o cheiro era de sal misturado a folha em decomposição, aquele perfume que incomoda quem chega e acalma quem retorna. Francisco carregava um bastão para testar o fundo e um cesto de vime que pertenceu à mãe dele. "Equipamento bom é o que não deixa você atolado", disse, rindo.
Trilhas que somem
As trilhas do mangue existem por algumas horas. Em maré alta, viram canais; em maré baixa, aparecem como linhas de lama mais firme entre raízes aéreas. Lúcia parou em um ponto onde três árvores formavam um arco natural. "Aqui a gente aprendeu a nadar quando criança", contou. "Meu avô dizia que o mangue segura a terra quando o mar empurra."
A fotografia em ambiente úmido exige paciência. Lentes embaçam, o contraste é baixo ao amanhecer e qualquer passo em falso salpica lama sobre o equipamento. Preferi trabalhar com luz natural e pouca interferência — registrar o ritmo, não interrompê-lo. Francisco e Lúcia seguiam em silêncio longo, interrompido só por aves e pelo estalo de cascos de caranguejo fugindo.
"O mangue não é terreno vazio esperando projeto. É onde a gente trabalha, ora, e reza."
Coleta e cuidado
A coleta de moluscos segue regras não escritas: tamanho mínimo, quantidade por pessoa, áreas de descanso para o estoque se recuperar. Lúcia mostrou siris pequenos devolvidos à toca. "Se a gente pega tudo, não sobra para o mês que vem", explicou. Esse conhecimento raramente aparece em debates públicos sobre o porto e a industrialização da região, mas sustenta dezenas de famílias.
O complexo industrial de Suape transformou o entorno nas últimas décadas. Estradas novas, cercas, barulho de caminhão à distância. Dentro do mangue, porém, o tempo parece dobrado: raízes espessas, lama fresca, maré marcando entrada e saída. Francisco apontou uma faixa de vegetação mais baixa. "Ali já perdemos copa por causa de aterro antigo", disse. "A gente luta para o resto ficar de pé."
Entardecer e retorno
À tarde, a luz entrou oblíqua e o mangue ganhou cor âmbar. Voltamos com cestos mais leves do que no verão — Lúcia disse que a estação está "comedida". No caminho de retorno, cruzamos com um grupo de estudantes de biologia que mapeiam pontos de nidificação de guarás. Trocamos poucas palavras: eles medem, nós fotografamos, Francisco e Lúcia coletam. Todos dependemos, de modos diferentes, do mesmo labirinto de raízes.
Na beira do cais, enquanto lavavam as botas, perguntei a Francisco o que ele chamaria de "notícia boa" sobre o manguezal. Ele pensou e respondeu: "Notícia boa é quando a maré sobe e desce sem levar ninguém junto, e a gente ainda encontra siris no tamanho certo." Simples assim. O manguezal de Suape continua sendo, apesar de tudo, um lugar de trabalho e de cuidado — não apenas um pano de fundo para a pauta econômica.
Antes de encerrar o dia, Lúcia mostrou um caderno onde anota marés e quantidade colhida por semana. São dados que não entram em relatório oficial, mas orientam a rota da família. "Quando a gente registra, ninguém pode dizer que o mangue não alimenta", concluiu. A fotoreportagem fica; o mangue segue seu ritmo — raiz, canal, maré, de novo.